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ago 17, 2017

EFÊMMERA ENTREVISTA: ROSIE

A ARTE DAS LETRAS NAS RUAS DE MANAUS PELAS MÃOS DE ROSIE


Natural de Manaus, Rosie é uma artista que possui um trabalho muito característico dentro da cena do graffiti entre as mulheres: é especializada em letras. Apaixonada pela caligrafia desde a infância, iniciou-se na arte urbana por meio da pixação* e foi arrebatada pela vontade de estar nas ruas.

Apesar de ter começado sua jornada ainda adolescente, parou de pintar durante dez anos – um ano após  ter fundado a primeira crew feminina da cidade – quando se dedicou integralmente à maternidade.

Dez anos depois da pausa, Rosie voltou às ruas a partir de sua reaproximação com artistas urbanos –  por meio de seu relacionamento, na época, com um grafiteiro – e, desde então, não parou mais.

Em entrevista à rede Efêmmera, Rosie conta um pouco de suas vivências enquanto mulher e grafiteira.

 

Equipe Efêmmera:  Quando surgiu a sua relação com a rua? Conte um pouco da sua inserção nesse universo.

Rosie: Comecei a observar as pixações da escola no começo dos anos 2000, eu tinha uns 13 anos. Achava massa a ideia de deixar meu nome por onde eu passava. Não tinha muita noção de por onde começar então eu reproduzia o pixo dos caras da escola pra aprender a criar o meu – do mesmo jeito que eu fiz o quando precisava aprimorar a caligrafia e copiava a da minha irmã. Comecei a pixar a escola, enquanto eu não podia praticar na rua praticava ali mesmo. Eu não sabia onde vendiam os sprays, na escola só pixava usando pincel atômico.

Comecei a instigar as minas que andavam comigo a pixar na noite, de spray, então uma delas me apresentou um amigo que pixava e que se dispôs a comprar spray pra gente dizendo que pra homem era mais fácil vender. No primeiro rolê com as minas, elas deram pra trás. Depois disso, comecei a sair sozinha, com a lata dentro de uma necessaire.

EE: Você ficou muito tempo pixando sozinha? Não tinha medo?

Rosie: Isso durou quase um ano, depois comecei a estudar no centro da cidade conheci bem mais pixadores, inclusive alguns que moravam perto de mim. Daí comecei a sair com eles pra pixar e parei de pixar sozinha. Eu curtia tanto a adrenalina que não me preocupava com mais nada. Hoje eu penso nas coisas que podiam ter acontecido…

Felizmente foi uma época em que a misoginia não reinava na cena nem no mundo que eu vivia. Conheci aos poucos uma galera que fazia graffiti, bomb. Um dia fomos acompanhar uns amigos dela num bombing e, chegando no muro, pedimos que eles abrissem uma letra pra nós. Lá eu e ela fizemos nosso primeiro bomb. Ali mesmo já tivemos a ideia de formar uma crew só de minas, porque ainda não existia.

Nesse dia acabamos formando a primeira crew feminina da cidade.

 

EE: Você é de Manaus, uma capital bem distante do eixo clássico do graffiti brasileiro. Isso interfere no seu trabalho? 

Rosie: Há pouco tempo, parecia que ser de Manaus tornava o fato de eu ser graffiteira mais interessante pra galera de outras regiões, eu percebia que o norte era visto como um lugar exótico, onde o graffiti era uma coisa meio surreal. A galera sempre dizia conhecer uns dois ou três nomes de “homis” do graffiti daqui, felizmente as relações virtuais e tudo mais vêm mudando isso.  Estar longe do sudeste não interfere em muita coisa. Pra mim, o graffiti estará onde eu estiver.

EE: Como a cena funciona por aí? Existe muita gente pintando?

Rosie: A cena aqui poderia ser maior se compararmos com o tamanho da cidade, mas o importante é que ela está sempre em atividade. Tem uma galera que se esforça pra realizar mutirões de graffiti nas quebradas, então é algo bem frequente de rolar. O graffiti vem sendo abraçado por um público muito diversificado. Muitas empresas querem um graffiti na sua fachada, ou um amante da arte que não entende muito bem o que é o graffiti quer um na sua sala… Até os viadutos estão sendo grafitados. Bem aos poucos, claro, mas estão. A gente resiste de todas as formas.

 

EE: Além da questão distância, também é preciso lembrar da questão de gênero. Ser mulher na cultura de rua pode ser desafiador de muitas formas. Como você sente isso por aí?

Rosie: Meu desafio aqui é fazer o melhor que eu posso, me importando o mínimo que eu puder com os homens da cena, porque tem uns que são bem desprezíveis. O início do meu envolvimento com a rua já me mostrou que eu era igual qualquer um dos que estavam ali no mesmo corre que eu.

Então eu cresci com esse sentimento de que eu não sou inferior a homem e, depois que eu voltei a pintar, conheci um cenário que eu não imaginava que existia, cheio de grafiteiro misógino, pixador retrógrado, preconceituoso, homofóbico, que acha engraçado fazer piada diminuindo mulher, gays e tudo mais. Tem quem mantenha relacionamento com mulher e que gosta de usar, manipular e objetificar as minas mais novas da cena, que prega de apoio ao feminismo, mas não desconstrói os amigos, quando estão sendo machistas e misóginos.

Estamos tentando tirar o atraso da cabeça dos caras, mas tem vezes que eu penso que é impossível sabe? Eu já sofri ameaças de agressão, já fui difamada por um que levou fora, já fui atacada por expor grafiteiro que manipula minas novinhas na cena, já tive vários trampos atropelados numa “cobrança” , que não sei de onde saiu…

Hoje em dia, mesmo não me curtindo, os caras reconhecem a qualidade do meu trampo e eu sigo batendo de frente sempre que for preciso. Desde o começo meu desafio é resistir.

EE: Você faz letras, que é a essência de tudo. Da onde veio essa vontade de dialogar com a rua através das assinaturas?

Rosie: A vontade de dialogar com a rua veio da vontade de fazer a diferença na rua. Quando eu dei de cara com o graffiti e vi que rolava juntar o amor pela caligrafia com arte de rua, eu quis me jogar nisso logo de cara. Comecei a fazer umas bobagens nos muros, porque na época era difícil ter grana pra material e eu não tinha ideia de que precisava ter referências, estudar, treinar antes.

Amava demais ver um Wildstyle. Lendo revistas conheci a origem do graffiti, toda a história por trás dele e vi que o começo de tudo isso foi através das letras e das pixações, então eu tive certeza de que era isso que eu queria fazer.

Desde criança eu sempre busquei a caligrafia perfeita ao invés de gostar de desenhar. A pixação me chamou atenção primeiro pelo fato de poder deixar uma marca por onde eu passasse. No pixo eu já tentava umas letrinhas bem feitas, diferentes, traço limpo. Depois que eu soube o que era o graffiti veio a sensação de poder fazer coisa muito maior e mais ousada então foi o melhor jeito de expressar minha paixão pela escrita e minha vontade de ter a escrita perfeita.

Em cada trampo (piece) eu tento fazer algo mais difícil que o anterior, melhorar o traço e tudo mais. Curto muito fazer letras também porque acaba indo meio contra o estereótipo que infelizmente já vi que alguns grafiteiros criaram em relação a mulher no graffiti, de que mulher só sabe fazer personagem, bonequinha. É um impacto pros caras verem mulher fazendo letra, nunca vou entender isso. Alguns admiram claro que porque amam letras mesmo. Outros ficam em choque porque acham que é coisa de homem.
Então muita coisa me levou a fazer o que eu faço. O amor pela escrita, o amor pela arte de rua, mostrar que graffiti não deve ter espaço pra retrocesso porque a evoluir é uma necessidade básica no graffiti.

 

EE: Você faz parte de uma crew feminina chamada Golden Girls. Da onde surgiu essa ideia? Quantas manas fazem parte?

Rosie: Eu e outra graffiteira do interior de SP, que não está mais na crew, saímos de uma e pensamos em criar outra, convidando minas que a gente já conhecia e amava seguindo um ideal diferente da outra crew que participávamos. Deu muito certo, me sinto muito sortuda e feliz por poder ter essas mulheres hoje na vida. Aprendi coisas que talvez não aprenderia sozinha ou em outra crew.

Conheci mulheres diferentes de mim que me ajudaram a ser a pessoa que me tornei, mais consciente. Conheci inclusive o feminismo através delas e isso fez toda diferença na minha vida. Com o tempo, eu percebi que era esse o caminho e hoje eu faço parte de uma crew harmoniosa. Cada uma tem um estilo único, uma essência e uma base diferente da outra.

Tem a Witch de Pernambuco, Naara de Recife, eu, Erê e Nadja do Amazonas, Nega e Lola de São Paulo e a Okay de Minas. A gente busca mostrar a força da mulher na cena do nosso lugar, a força que a união traz, a capacidade de ocupar e resistir mesmo que o sistema e a própria cena tente nos diminuir como mulheres e artistas.

 

*os termos derivados da palavra “pixação” são usados com a grafia comum aos artistas urbanos

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Comments (4)

  • CRONO
    ago 22, 2017

    Parabéns!!!

    Responder
  • Briet
    ago 19, 2017

    Show … Mulher, guerreira, artista, graffiteira, foda.

    Responder
  • Ven do delonge
    ago 17, 2017

    Sou apaixonado demais por essa mulher..

    Responder
  • Raísa Trinny
    ago 17, 2017
    Responder

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