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ago 31, 2017

V NA IDEIA | 01

written by V
in category V na Ideia

Salvê!

Muito honrada em inaugurar esse espacinho de trocas aqui no blog da Efêmmera.

Quero dividir com vocês um pouco do que tem me movido e instigado, nessa jornada de mulher, lésbica, artista e feminista, tentando produzir algo genuíno a partir das minhas vivências. Pra quem não me conhece sou a V, tenho 37 anos, e comecei a pintar em meados de 2006 nas ruas de SP. Depois de um tempo experimentando as colagens, fui pro muro com o graffiti. E desenhando sempre. Meus dois amô: muro e papel, um complementando e alimentando o outro.

Vou debutar por aqui propondo que a gente pense sobre “nós”: minas que encontraram seu lugar no mundo imundas de tinta, passando nervoso, medo, e um monte de felicidade sem fim, quando vê mais um trampo pronto na rua.

O que representa mulheres pintando, intervindo nas ruas? Esse território que nos é tão hostil, cheio de machismo e misoginia. Como é a realidade de uma mulher que se vê tendo a rua como suporte de sua pesquisa e produção artísticas? 

Nós graffiteiras somos bem diversas, e a realidade material de cada uma vai interferir nas relações que irão se desenrolar nos espaços que ocupamos. Quem vai ter acesso a certas oportunidades, quem vai ser mais invisibilizada, qual será o corpo que importará menos. Na rua só o fato de sermos mulhereres fará com que sejamos alvo de violência masculina, mas se a mulher for negra será uma experiência ainda mais violenta, porque, pra além disso, sofrerá com um imaginário criado pelo racismo, que a desumaniza e coloca como objetos os corpos negros/racializados. 

Lembremos sempre que o graffiti surge como grito de uma juventude esmagada pela opressão, das quebradas mais zika negras e latinas de Nova Yorque, sem acesso ao “american way of life”, onde gente racializada só cabe nos piores empregos, com os piores salários, e se achar ruim, também pode trabalhar sem remuneração nas prisões privatizadas, senzalas modernas.

Quando o Hip Hop explode, no fim dos anos 1970, com toda sua força de expressão, crítica ao estabelecido, trazendo novas estéticas, novas poéticas, traz também no bojo essa gênese: ser cria de gente de pele escura, que partindo da pedra filosofal da resistência, desenvolve os quatro elementos como linguagens dessas narrativas. E é dentro desse corpo de luta do Hip Hop, que o graffiti surge como expressão visual e artística.

Falei tudo isso pra gente entender o contexto. Entender que pra se construir uma cena de graffiti menos predatória, injusta, cheia de meritocracias convenientes e meteção de loko, a gente tem de falar também de como o branqueamento opera dentro do graffiti, pra além do sexismo e da misoginia. Vivemos no país que foi o ÚLTIMO do mundo a abolir a escravidão, gente. Ainda hoje tem arquiteto querendo meter quarto de empregada na planta da casa, e capitão do mato “confundindo” saco de pipoca de menino negro com pistola. Num contexto desses, e com mais da metade da população negra, não dá pra ter evento de graffiti com maioria de pessoas brancas, sejam caras ou minas. Não dá pra achar okay, olhar ao seu redor e não ver quase nenhuma pessoa negra no espaço, na exposição, no painel.

No fim, basicamente o que eu quero é ver essa cena cheia de minas, mais e mais. Pesquisando linguagens, técnicas, produzindo muito, construindo coletivamente, mas que seja menos branca. Ou melhor, que seja o que sempre foi. Tanta artistas negras maravilhosas, produzindo o puro ouro por aí. São essas que temos de estar atentas, esse é compromisso que o graffiti nos coloca como mulheres graffiteiras buscando os caminhos pra nossa libertação coletiva. Uma puxando a outra, aprendendo sobre nossas responsabilidades, cuidando das reparações, se curando juntas.

Que a gente consiga oxigenar essa cena de graffiti tão viciada. Que nunca falte tinta.

Vida longa pras malokera tuda!

V

 

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Comments (1)

  • Raquel Bedê
    dez 15, 2017

    Começando a passear por aqui. Eu adoro esse momento visceral em que estamos, de dar voz a mulherada, vamos juntas. TODAS. 😀

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