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out 19, 2017

V NA IDEIA | 02

Graffiteiras lésbicas, cadê?
Por que falar de graffiti e lesbianidade?

(…) muito antes que existisse ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lésbicas, mulheres que amavam a outras mulheres, que se recusavam a cumprir com o comportamento esperado delas, que se recusavam se definirem a si mesmas em relação aos homens. Aquelas mulheres, nossas passadas, milhares, cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas, perseguidas pelas religiões e mais tarde destruídas nas fogueiras da ciência. Adrienne Rich, 1983 

Acredito que pra gente falar de minas do graffiti se auto organizando, num sentido de resistir ao machismo e misoginia da cena, temos que falar de lesbianidade. Não só pela existência de várias graffiteiras e artistas de rua lésbicas, mas também porque a lesbianidade representa resistência diante desse sistema anti-mulheres em que vivemos.

Desde que passei a me relacionar exclusivamente com mulheres, tenho tentado conhecer o trabalho de outras artistas lésbicas, saber onde elas estão, como são suas realidades, produções artísticas, vivências de rua, etc. Aí nessa busca por conhecer o universo das artistas lésbicas, pensei em fazer um vídeo falando da minha realidade. Assim surgiu a idéia do vídeo “Veronica, eu te vejo”, feito em parceria com a maravilhosa Carol Fernandes. Ele é um registro onde eu falo da minha vivência enquanto mulher, graffiteira e sobre minha lesbianidade.

Fiquei pensando que numa cena de arte urbana onde artistas gays fizeram história, como Hudnilson e Alex Vallauri, cadê as zikonas sapatão das tintas? Elas existiram/existem? Óbvio que sim, lésbicas sempre existiram. Mas qual é o peso de você marcar esse seu lugar, o de ser uma artista abertamente lésbica, dentro de uma sociedade machista e misógina? Pesquisando um pouco nas minhas redes, em busca de graffiteiras que se reafirmam lésbicas, (re)encontrei o trampo da Thalita Andrade/LUTO e da Annie Gonzaga/Ganzala, ambas mulheres negras e baianas. Vendo suas redes e entrevistas na internet, a gente percebe muito em comum. Pra além de uma produção riquíssima, essas manas compartilham vários relatos de perseguição por serem lésbicas. Não são raras as histórias de trampos atropelados com conteúdos misóginos e lesbofóbicos numa tentativa de apagamento da existências delas. Sem falar o que significa serem mulheres, lésbicas e negras dentro desse hétero patriarcado racista em que vivemos. Os caras não guentam.

Por essas e por outras têm minas que evitam se expor, comentar sobre o assunto. Aí eu volto pro começo do texto: cadê as mulheres que foram nossas pioneiras nas artes urbanas e que eram lésbicas? Eu não sei, mas sei que existiram.

E em tempos de cura gay, eu digo: Graffiteira Sapatão, presente! Bora escrever nossa história, mas sem apagamentos. Um rolê sem lésbicas, é um rolê sem sol.

Abraço pras malokera tudo!

V

 

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