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nov 9, 2017

EFÊMMERA ENTREVISTA: SERIFA

O lettering de encontro com a vivência da arte urbanas.

Muito além de uma designer especializada na técnica do lettering, Bruna – mais conhecida como Serifa – é letrista e artista e seu trabalho encontra um espaço único na arte urbana atualmente. Sua obra estabelece dois diálogos: um que é intrínseco a ela própria, entre as formas e as palavras escolhidas; o outro entre a arte e o interlocutor dentro do contexto do meio urbano.   

Proveniente do bairro de Pinheiros, aos 28 anos Serifa consolida uma arte que é resultado de interesses muito antigos. Desde criança, já adorava desenhar letras em seus cadernos escolares. Quando mais velha, decidiu estudar design gráfico na faculdade e foi lá que se envolveu com diversas ONGs e projetos sociais e culturais.

Um destes projetos foi o mais especial e foi responsável por aproximá-la do graffiti: o Pimp My Carroça. O universo da arte urbana revelou-se uma paixão e apresentou-se como uma oportunidade para dar vazão ao antigo hobby de desenhar letras. Assim nasceu a Serifa.

Designer de formação e letrista de coração – como ela própria costuma dizer – Serifa concedeu uma entrevista exclusiva para o Blog da Efêmmera, contando um pouco mais do momento em que vive, de como funciona seu processo de criação e de seu envolvimento com a arte urbana.

Equipe Efêmmera: Como e quando você começou a fazer lettering?

Serifa:  Eu sempre observei muito os pixos nas ruas, aquilo sempre me indagou. Mas foi só em 2012, quando eu comecei a trabalhar no Pimp My Carroça, que eu me dei conta do tamanho do universo do graffiti /pichação. Claro, eu fiquei maluca de ver tanta arte sendo feita a partir das letras, e comecei a pesquisar mais sobre tudo isso. Aos pouco, fui me desenvolvendo, fiz alguns cursos de caligrafia e lettering e, em 2014, assumi meu trabalho artístico.

EE: Qual foi sua motivação?

Serifa: Desde o começo eu tinha duas principais motivações: uma externa e outra interna.

Externamente, a minha motivação é propor reflexões e mudanças. Eu percebi que uma simples mensagem pode transformar o dia de uma pessoa, trazer questionamentos, reflexões, lembranças, sorrisos e, em um âmbito maior, até contribuir para uma mudança no comportamento e mentalidade das pessoas.

Já internamente, percebi que ser artista é ficar vulnerável. É transformar ideias do campo emocional para o material. É poder escutar meus instintos, abrir meu coração e expor minhas ideias. Quando eu descobri que o meu trabalho poderia ser uma ferramenta de autoconhecimento, e que possibilitaria eu me expressar e compartilhar minhas ideias com o mundo, eu não queria mais saber de outra coisa rs.

EE: Você acredita que sua arte, por trabalhar com as palavras, possui uma comunicação diferente com o público?

Serifa: Acho que qualquer arte tem o poder de se comunicar com o público.  A questão é que as palavras são uma comunicação mais óbvia por estarem presentes no nosso dia a dia: da embalagem do leite, à sinalização do metrô ou à bula do remédio.

Quando eu escrevo uma palavra, ela não é só lida da mesma forma que alguém lê um jornal. Ela também é vista, é sentida. Essas palavras criam uma conexão com as pessoas, e dão um novo significado à um hábito tão rotineiro quanto ao da leitura. E é exatamente isso que eu procuro explorar no meu trabalho.

EE: Você costuma sair para pintar espontaneamente? Se sim, como funciona a escolha da mensagem?

Serifa: Não é algo que eu faça com tanta frequência, mas quando eu vejo uma paredinha potencial, me organizo para voltar e deixar uma pintura. Agora, viajar é sem dúvida uma das coisas que mais desperta em mim a vontade de pintar de forma mais espontânea, me deixa mais inspirada. Acho que é uma ótima forma de conhecer e interagir com o lugar novo.

Nem sempre eu colo na parede sabendo o que vou escrever. Se eu tenho mais tempo, procuro reflexões que quero compartilhar, o que estou sentindo naquela hora, o que o local me remeteu, o que eu gostaria de cultivar… Claro, quando a parada é rápida, não dá muito tempo de formular nada incrível e acabo pintando palavras mais batidas. O intuito aqui é fazer as pessoas pararem, olharem e, de uma forma ou outra, se impactarem com a mensagem.

EE: Na exposição Essência Efêmera Exposta você fez a arte do poema da sala principal. Como você concebe sua arte para que ela dialogue com os versos de uma poetisa?

Serifa: Esse é um trabalho muito delicado uma vez que eu preciso garantir que o texto seja lido e interpretado da mesma forma com que a poetisa o concebeu. Ou seja, preciso estar muito atenta na escolha da caligrafia, a forma com que as letras se conversam e à “mancha de texto” que eu vou criar.

Pra isso, acho que o primeiro passo é abrir a nossa sensibilidade e a nossa intuição. Depois, ler e reler o poema várias vezes para absorver cada frase até eu me tornar o poema e poder transformar tudo isso em linguagem visual. No caso do poema da Ana Squilanti que estava na abertura da exposição, eu queria trazer a identidade da mulher forte e empoderada, que se permite extravasar, marcar e se expor. Para isso, utilizei uma caligrafia com mais personalidade, com bastante fluidez, feita com um pincel de forma que alguns traços saíssem mais fortes que outros, para que uns se sobressaíssem e gritassem quase em um simbolismo de resistência.

EE: Muitas outras pessoas fazem lettering, mas qual você acha a principal diferença entre fazer lettering de maneira comercial e fazê-lo como artista urbana? Você percebe peculiaridades quando realiza ações junto às efêmmeras por exemplo?

Serifa: Sem dúvida nenhuma! No lettering comercial, eu sou só um canal. Eu transformo o desejo do cliente em arte, mas sempre atrelando o sonho dele com a minha intuição.  Já nos rolês pessoais, eu deixo de ser um canal para ser a protagonista da mensagem. A expressão do trabalho passa a ser exatamente a minha expressão, ele é um reflexo de mim.

EE: Você participou da ação das efêmmeras no Pimp Nossa Cooperativa, um desdobramento do Pimp My Carroça. Como você se sente quando realiza trabalhos em lugares que ainda são pouco valorizados da cidade?

Serifa:  Essa ação foi particularmente muito especial pra mim. Por já ter trabalhado alguns anos no Pimp, poder reviver de perto o dia a dia dos catadores e catadoras só reforçou o respeito e admiração que tenho por eles que, infelizmente, mesmo prestando um serviço ESSENCIAL para as nossas cidades, ainda são muito pouco valorizados. E pintar a Cooperativa Viva Bem foi uma forma de reconhecer esses trabalhadores que agora passaram a ter um espaço mais colorido, organizado e bonito para trabalhar.

Poder levar arte para os lugares pouco valorizados é a uma forma de se conectar com as pessoas, agradecer e presenteá-las. Meu maior desejo é que minhas pinturas contribuam para que os dias de cada um sejam mais alegres. 🙂

EE: Você pode deixar uma mensagem que sintetize o valor do seu trabalho como artista?

Serifa: Acredito que as palavras conectam pessoas e histórias, e que essas histórias podem mudar o mundo. Comunicar é compartilhar, é contribuir e dividir. Espero poder enaltecer palavras, que quebrem barreiras e tornem as fronteiras invisíveis. Meu sonho é que essas mesmas letras me levem para conhecer o mundo e novas histórias, que elas me conectem mais com a natureza e à minha essência, que ela seja uma moeda de troca para um futuro mais humano.

Mais Serifa em: serifa.art.br

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Comments (1)

  • Roo Sie
    nov 10, 2017

    que coisa mais foda ♥️

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